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O Quarto do Piano
O que vou contar, realmente aconteceu comigo e até hoje não me sinto tranquila quando estou sozinha a tocar piano.
Era domingo, fim de tarde, como é de costume, todo domingo eu, os meus pais e as minhas irmãs vamos para a casa da minha avó materna.
A minha avó é música e há algum tempo atrás ganhou um piano, e como sei tocar, sempre que ia para a casa dela, trancava-me dentro do pequeno quarto onde está o piano e ficava até à hora de irmos embora.
Naquele dia não me sentia muito bem, estava engripada, então quase nem toquei.
À tarde, eram umas sete horas, resolvi que queria tocar, saí da sala de estar, deixando lá os meus pais, as minhas irmãs e a minha avó a ver televisão, e desloquei-me até o quarto do piano. Entrei, sentei-me e comecei a tocar uma partitura qualquer que estava lá.
O quarto não é muito grande por isso não tem muito móveis, apenas um sofá de dois lugares ao lado do piano, um armário à frente do piano e uma pequena mesa onde a minha avó guarda os seus livros e tudo mais.
Bem em cima daquela mesinha está a janela, grande, de madeira, e como a casa é toda no rés-do-chão, qualquer coisa que venha a passar pelo quintal pode ser vista.
Quando este facto ocorreu, o meu avô tinha morrido há pouco mais de dois anos, e a minha avó vivia a relatar ter ouvido, ou até mesmo visto o meu avô a perambular pela casa depois da sua morte, e esses relatos deixavam-me cada vez mais insegura em ficar sozinha em qualquer lugar daquela casa. Mas, quando estou a tocar, deixo-me ser levada aos céus pela sinfonia e nem me lembro que não gosto muito de ficar sozinha.
Mas voltando... Terminara de tocar a música que estava no piano quando cheguei e agora queria algo novo, virei-me para procurar um livro que eu pudesse tocar, sempre atenta a janela pois o meu pai, muito engraçadinho, adora assustar-me ficando parado em frente à janela e quando menos espero, me assustar, olhei para a janela e não havia nada além de algumas peças de roupas penduradas no estendal.
Voltei a minha atenção novamente para o piano com um livro na mão pronto para ser tocado. Toquei todas as músicas que gostara naquele livro e nem percebi que o tempo passara tão rápido e naquele momento o sol já se estava a pôr e a escuridão da noite subia rápida pelo horizonte, voltei novamente a atenção para o piano mas lembrei-me de que deixara de pegar no outro livro para tocar, então virei-me como da outra vez.
Só que dessa vez tinha alguém a espiar-me pelo cantinho da janela, foi tudo bem rápido então só pude ver que a pessoa que me observava era um homem, com uns cabelos que me pareceram ser brancos, apesar de ter pouquíssimos cabelos (quase careca), os olhos eram esverdeados e estavam vermelhos, a pele dele também estava bem avermelhada.
À primeira vista assustei-me, mas pensei que era o meu pai tentando assustar-me pois o meu pai também é quase careca e tem olhos esverdeados como os da figura ali vista, mas logo reparei que não era pois ouvi a voz dele vinda da cozinha, e a cozinha é consideravelmente longe da janela do quarto do piano, seria praticamente impossível um ser humano correr e chegar lá em segundos.
Quando olhei a figura pareceu esconder-se de mim atrás da parede em volta da janela.
No momento, a minha primeira reacção foi agarrar rapidamente no livro e virar-me para voltar a tocar.
Pensava comigo mesma que aquilo tinha sido uma miragem, nada mais. Até que ouvi a porta do quartinho a abrir, nem liguei pois a porta é velha e a maçaneta está ruim, o meu pai tinha até combinado com a minha avó de naquela semana ir lá dar uma vista de olhos na porta e a minha avó na época tinha uma cadela velhinha que vivia deitada no sofá do quarto do piano. Então pensei que pudesse ser ela que empurrara a porta com o focinho, e como a maçaneta está ruim a porta se abrira.
Virei a minha atenção para a porta, não havia nada nem ninguém, a porta abrira sozinha... voltei a pensar comigo mesma: 'Deixa de ser medrosa menina, a porta está ruim foi isso!'
Quando me virei para o piano vi, por um quadrinho de vidro que minha avó guarda em cima do piano com uma foto dela e do meu avó, uma sombra, que parecia ser a silhueta de uma pessoa, alta e magra, a silhueta estava escura, o que não me permitia ver a sua face ou as suas roupas.
A sombra caminhou por trás de mim parando ao meu lado, às minhas costas. Senti meu coração na garganta e o pavor tomar conta de mim, queria levantar-me dali e correr gritando, mas tinha um medo que deixava as minhas pernas bambas e ao mesmo tempo rígidas, tinha medo de gritar não sei porquê.
Olhava fixamente para o quadrinho, só que não conseguia ver mais nada. Talvez tivesse ido embora, talvez estivesse lá, ao meu lado, só que não a conseguia ver pois o quadro não consegue reflectir todos os ângulos do quarto, ou talvez, tivesse sido coisa da minha cabeça!
Naquele momento o medo falou mais alto, e escutei a voz da minha mãe ecoando na cozinha que ficava no final do corredor. Com um único impulso, consegui pular rapidamente do banco do piano e correr para fora dali.
Parei no corredor, vendo a minha mãe conversando com o meu pai sentada na mesa da cozinha e a minha avó apoiada na pia tomando uma chávena de café. No momento não quis dizer nada, tinha medo da reacção da minha avó, e do meu pai, que não acredita em nada disso, me zombaria para o resto da minha vida.
Resolvi ficar de boca fechada e não dizer a ninguém! Não muito tempo depois viemos embora e quando chegamos a casa, não conseguia mais, aquilo estava entalado na minha garganta, eu queria, precisava de contar a alguém. Foi então que pedi que à minha mãe que viesse comigo até ao meu quarto pois queria falar com ela.
Contei-lhe todo o ocorrido e ela disse que me entendia, pois também já vira de tudo dentro daquele quarto, que quando ela era solteira era seu.
Depois daquele dia não gosto de ficar sozinha no quarto do piano e muito menos com porta fechada ou janela aberta, e também costumo ouvir vozes chamando pelo meu nome quando estou dormindo ou quando estou no banho.
Bom, não sei bem o que aconteceu naquele fim de tarde, só sei que nunca mais fiquei tranquila ao entrar naquele quarto!