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Viagem Astral
Desde a adolescência, que o mundo do fantástico, nas sua diversas vertentes, sempre me atraiu. Fui (e ainda sou, mas duma forma muito mais ténue) consumidor de filmes, de livros, de relatos, etc, que abordam o tema. Escritor de culto: Stephen King; Série de culto (1ªas): X-Files.
Mas a adoração por esse mundo (...) paralelo (?) nunca me fez perder a noção da realidade (?) ou dita realidade. E mais…a vida terrena sempre me distraiu imenso, ao ponto de não me preocupar ou desejar conhecer o além, apesar de suspeitar inicialmente da sua existência e mais tarde ter tido oportunidade do comprovar. E mesmo depois disso nunca fui assediado por laivos de vaidade ou de protagonismo de qualquer espécie, cingindo-ma a relatar a minha experiência a um grupo muito restrito de pessoas.
Por aquilo que tenho lido, não tenho dúvidas, que muita gente, com uma experiência destas já tinham feito um filme, tal é a quantidade de relatos que lhes leio de factos que se arrogam ter vivido. E das duas uma, ou andam à procura de alguma coisa (que nunca lhes aconteceu e gostariam que sim) ou então são pessoas fora de série, tal é a quantidade de experiências que lhes acontecem. Infelizmente, este tipo de situações, a meu ver proporciona a descredibilizarão e desacreditação destas realidades paralelas (?), chegando ao ponto de fazê-las cair no ridículo.
Lamento esta introdução, mas em boa consciência vi-me obrigado a fazê-la. De seguida, em boa consciência vou-vos relatar uma experiência (verdadeira e não ficcional) que vivi e que nunca mais espero voltar a viver...
Há cerca de 10 anos resido em Coimbra, mas nasci e fui criado em Setúbal. Tinha cerca de 19 anos (agora 40) e numa noite de Verão como as outras, decidi ir ao cinema Luísa Todi (agora Sala de Teatro, julgo) naquela cidade, acompanhado do ainda meu amigo Soeiro (um ano mais velho) ver uma sessão da noite.
O filme que nem me recordo qual foi, terminou próximo da meia-noite e prontamente me pus a pé para casa (apesar de ter 19 anos, os meus pais não gostavam que eu chegasse muito tarde. Hoje com 15 chegam às tantas. Outros tempos…outros pais…).
Chegado a casa (passados 10m) despedi-me do meu amigo que morava na minha Rua. Entrei em casa e cumprimentei os meus pais que deram sinal de alerta (mas já estavam deitados em vias de dormir).
De seguida fui ao WC, casa de banho e antes de dormir bebi um copo de leite com 1 ou 2 bolachas e meti-me na cama. Sentia-me normal e estava em época de férias (da escola) e nada me preocupava em especial.
Desliguei a luz da mesa-de-cabeceira e fechei os olhos. Não podia dizer que estava "arrasado" de sono, mas à partida não se afigurava difícil a tarefa de dormir.
Passado algum tempo acordei, mas logo de imediato tive a percepção que algo estava errado. Pela clarabóia (janelinha no teto) do quarto entrava a luz da lua, mas desta vez com uma luminosidade diferente. Como se a luz que inundava o quarto tivesse dividido em partículas pequeníssimas mas resplandecentes.
Além disso achei logo estranho ter acordado sem motivo aparente, quando à partida ainda seria de madrugada. Mas que estava acordado e consciente do meu ser e do que me rodeava estava…ah isso é que estava. Inesperadamente, senti o meu corpo a levitar na horizontal. Pensei de imediato que estava / ou tinha morrido.
A situação causou-me pavor. Chegado ao teto do quarto, olhei para baixo e vi-me deitado na cama a dormir. Gritei (ou melhor berrei) de imediato pela minha mãe, mas apesar de conseguir soletrar as palavras, não saía (ou não era produzido) qualquer som, pelo menos que eu me apercebesse.
De seguida acordei (normalmente) daquele estranho pesadelo (julgava eu) e sentei-me na cama com a pulsação elevadíssima.
Nos dias que se seguiram quis-me convencer que era um sonho, mas apesar de o desejar, não consegui, pois sei que não foi um sonho, pois até aquele dia, os sonhos agradáveis ou não que já tinha tido e que me recordava, sabia perfeitamente o que eram: meros sonhos.
Alguns, os tais eróticos (ou molhados...) até no seu próprio momento, já sabiam o que eram, apesar de não querer que terminassem. Em suma, por muito que me quisesses convencer, sabia que aquilo não tinha sido um sonho. E nalgumas noites de vez em quando, sentia receio pelo que me aconteceu... e receava a sua repetição, além das inúmeras questões que colocava ao meu irrequieto espírito. Decorrido cerca dum ano, perdi o receio e fui esquecendo aquele estranho episódio.
Às vezes até pensava porventura que poderia ter sido um sonho (um pesadelo). E continuei sem falar desse facto com ninguém. Apesar de na altura o mundo do fantástico me atrair, nunca tinha ouvido falar em desprendimentos espontâneos ou não do corpo, ou viagens astrais. Em resumo, era uma realidade que me era completamente alheia. No Verão seguinte (decorrido sensivelmente um ano) uma família amiga que vivia em França (país onde eu e os meus pais também vivemos) visitou-nos em Setúbal.
A filha do casal (Elisabete, mas que todos tratávamos carinhosamente por Babete), 2/3 anos mais velha, sabendo dos meus interesses (pelo fantástico) ofereceu-me um livro (que ainda tenho guardado) cujo título é: Viagens Astrais e mais qualquer coisa que não me recordo. Agradeci a prenda e num gesto de boa educação, folhei-o mostrando-me interessado por ele. Mas verdadeiramente não.
O título não me despertou qualquer interesse, nem sequer o relacionei com o meu episódio. Guardei-o numa gaveta no quarto. Passado algumas semanas, numa noite de tédio, com nada de interessante na televisão e para fazer e sem sono (os meus pais já dormiam) lembrei-me do livro da Babete e decidi ver do que se tratava afinal.
Percorri alguns capítulos e garanto-vos uma coisa. Ao começar a ler um capítulo que abordava a 1ª viagem astral espontânea, dizendo que acontecia no quarto; que assustadamente se chamava por um dos progenitores e geralmente a mãe, etc. Senti de imediato um frisson e caí em mim. Afinal não estava enganado. O que tinha tido não foi um sonho. Fui buscar de imediato um lápis e pus-me a sublinhar as partes do relato que eram idênticas àquilo que me aconteceu. São dezenas de frases sublinhadas. Até parecia que o meu episódio vinha ali relatado, tal era a semelhança. Senti de novo aquele receio que me tinha assolado no Verão passado.
Emocionado contei o episódio a cerca de 2/3 dos meus amigos mais chegados, mas nenhum me soube serenar os ânimos. Só uma ex-cunhada que na altura era interessada nesses assuntos (dizia-se…médium) me soube acalmar e explicou-me que não seria obrigatório tal coisa voltar a acontecer-me e lá conseguiu convencer-me.
Meus caros amigos, garanto-vos uma coisa. Deus queira que não me volte a acontecer mesmo...