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O Seu Outro

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No conto "O Outro", extraído do Livro de Areia, o autor Jorge Luís Borges nos relata um facto extraordinário ocorrido com ele em 1969, em Boston.

 

Sentado em frente ao rio Charles, inicia um diálogo com um homem que não existia, aparentando sessenta anos, mas que era seu sósia, guardada a diferença de idade. Um Borges actual e outro Borges do futuro em andamento.

 

Afinal, isso são acontecimentos, no dizer do próprio escritor: os factos são meros pontos de partida para a invenção e o raciocínio. O homem tenta viver sob a perspectiva da eternidade.


Fim de 1981, em Teresina, capital do Piauí, lá estava eu como vendedor viajante e conheci em frente ao Rio Parnaíba, Evilásio Tito, atacadista de cereais, que antes de falecer em 1990 e sabedor do meu interesse por esoterismo e doutrinas iniciáticas, confidenciou-me o facto a seguir.


Em 1948, era pequeno comerciante em um empório no Mercado do Mafuá, naquela capital. Eram 13 horas estava sozinho no balcão, na hora da sesta, e uma camioneta Nissan Verde-musgo, que na época não existia, estacionou, bem a sua vista e à sua porta. Estupefacto, viu descer um homem que não existia que em seguida entrou no seu estabelecimento e, com ele, estabeleceu um longo e assustador diálogo.


O estranho personagem, sob um calor de 40 graus, vestia terno branco, usava chapéu panamá e, para falar, um microfone conectado a um aparelho preso à cintura em razão de uma lesão nas cordas vocais. Mostrou-lhe um telemóvel, que não existia ainda e no qual ele fez uma ligação para um atacadista local, comprovando sua funcionalidade. Mostrou-lhe uma incisão cirúrgica a altura do ombro direito e descreveu a funcionalidade de um aparelho marca passo implantado, que também não existia! Passado, presente e futuro estavam transcorrendo em um só instante, na consciência do Todo.


Aquele homem do futuro parecia-se com ele. O mesmo biótipo, a mesma altura, o mesmo tom e timbre de voz, os mesmos trejeitos. Rezou para que entrasse alguém, que pudesse servir como testemunha das evidências, o que não veio a acontecer. Ele estava incurso no relógio do tempo.
Na sua crónica, Borges relata que não há cronologia e nem história e que as precisões são inúteis.


O personagem, antes de se despedir de Evilásio após o longo diálogo, pediu-lhe que olhasse no espelho, posto no balcão de vendas e comprovasse que ambos eram o mesmo homem! Com a evidente diferença de quase meio século! Finalizou, dizendo: você será assim como eu, quando morrer aos sessenta e cinco anos.


Pouco antes de falecer em 1990, após completar os seus sessenta e cinco anos de idade, Evilásio telefonou-me chamando-me urgente à sua empresa. À porta do armazém atacadista, mostrou-me uma camioneta Nissan verde-musgo, que acabara de adquirir, resultado de um acerto de contas com um cliente.


Em silêncio, mostrou-me o telemóvel que usava na ocasião, exibiu a incisão do marca-passo no tórax e apontou para o aparelho amplificador que, na ocasião usava para falar. Trajava terno de linho branco e chapéu Panamá.


Ficamos em silêncio, observando o nada, impotentes, ante os indícios evidenciados, ouvindo o barulho das águas do rio Parnaíba bem próximos, o rumor dos veículos que passavam na Avenida Maranhão, apatetados ante a métrica do relógio kármico! Factos que até então haviam sido relatados como extra-sensoriais, aconteciam ao vivo e em cores no nosso quotidiano!


Foi a última vez que o vi com vida; logo partiu para os mundos súperos, num encontro com o outro Evilásio!

 

Submetido por: Raphael Reys  

Publicado em: 7 de Julho de 2009
 


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